Biólogas usam os 1.668 avistamentos registrados no site WikiAves para estudar a história natural do falcão-peregrino no Brasil

por Pedro Luna

“As pessoas costumam andar pela Avenida Paulista sempre apressadas. Ficam olhando para os lados, aflitas com o horário, com o trânsito, ou com a possibilidade de alguém levar seu celular, ou sua bolsa. Ninguém tem tempo para parar um instante e olhar o céu. Mas se você fizer isso, perceberá que tem muita coisa acontecendo lá em cima. Se tiver sorte, poderá observar, por exemplo, falcões-peregrinos caçando pombos. É uma visão inesquecível”, conta a bióloga Erika Hingst-Zaher, do Instituto Butantan, em São Paulo.

No final de 2019, a então estudante de graduação em biologia Louise Schneider, do IB-USP, procurou Erika para que esta a orientasse no seu tema de TCC. Louise queria trabalhar com o comportamento de primatas. Erika sugeriu então que a estudante trabalhasse com os saguis urbanos que podem ser encontrados no parque do Butantan. Louise gostou da ideia e tratou de arregaçar as mangas.

Mas, no início de 2020, a pandemia desabou sobre as nossas vidas — e todo o mundo passou a viver confinado. De uma hora para a outra, Louise perdeu o acesso aos seus saguis urbanos. Para não deixar a estudante na mão, Erika matutou sobre como permitir que Louise conseguisse prosseguir seu estudo sobre o comportamento de animais de forma remota. “Que bicho eu posso propor, que seja tão interessante quanto um primata, e que tenha uma questão que possa ser estudada e respondida sem a aluna ter que sair de casa? Tem que ser um bicho sexy! Mas qual?”, repete Erika.

Os macacos cederam lugar a uma ave de rapina, o falcão-peregrino. “O falcão-peregrino é sexy. É uma espécie icônica de ave, um símbolo da luta conservacionista”. Erika sugeriu à Louise que usasse os dados do Wikiaves para monitorar a migração dos falcões-peregrinos.Centenas de passarinheiros de todo o Brasil gastam um tempo enorme observando falcões e publicando belíssimas imagens e as coordenadas de cada registro na página dos peregrinos no WikiAves. Até 2021, quando Louise fez o levantamento dos avistamentos para a sua pesquisa, o WikiAves listava mais de 2.300 registros (em 1.668 fotografias) de peregrinos no Brasil. Hoje, os registros já são 3.124.

Falcão-peregrino (crédito: Mike Baird CC BY 2.0)

MIGRAÇÃO ANUAL

Como seu nome indica, o Falco peregrinus passa a vida migrando entre os dois hemisférios. Com a chegada do outono no hemisfério norte, os peregrinos decolam de suas áreas de reprodução acima do paralelo 70º N, nas beiradas do Ártico. As aves fogem do rigoroso inverno que se aproxima. Partem em sua busca anual de refúgio no calor no sul do planeta.

Dependendo da subespécie (são 19), os peregrinos começam sua migração na Escandinávia, na Sibéria ou no Extremo Oriente, com destino à África do Sul, à Índia e ao Sudeste Asiático. No caso das Américas, a rota migratória parte das áreas de reprodução espalhadas pelo Alasca, Ártico canadense e Groenlândia. É o início de uma migração que pode levar até sete meses, consumidos no percurso de mais de 12 mil quilômetros até o destino final: as áreas de invernada na Patagônia chilena e argentina.

“O Brasil é uma importante área de invernada para o falcão-peregrino, especificamente para as subespécies tundrius e anatum”, escreve Louise Schneider. Utilizando dados do WikiAves, ela pôde analisar aspectos da história natural da espécie, incluindo seu comportamento migratório, distribuição geográfica, dieta e interações ecológicas. 

Mapa com a localização dos avistamento de peregrinos nos diversos biomas brasileiros, em WikiAves

NOS CÉUS DO BRASIL

Os falcões-peregrinos podem ser avistados no Brasil entre outubro e abril. “Nossos dados sugerem que adultos chegam até um mês antes dos juvenis. Foram registrados indivíduos em todos os 26 estados. Não observamos nenhuma diferença significava na distribuição geográfica devido à subespécie ou faixa etária. Porém, detectamos uma aparente escassez de peregrinos na região Centro-Oeste”. 

Entre as 200 imagens de peregrinos se alimentando, Louise registrou a ocorrência de comportamento agonístico, que é qualquer comportamento social relacionado à disputa. Ela também identificou a ocorrência de cleptoparasitismo, forma de alimentação em que um animal deliberadamente tira a comida de outro.

Em sua passagem anual pelos céus brasileiros, os peregrinos se alimentam majoritariamente de pombos (Columbiformes) e Charadriiformes (pronuncia-se CARAdriiformes), ordem de aves marinhas que inclui as gaivotas, as batuíras e os maçaricos. 

“Qualquer um pode andar pela Paulista e observar um peregrino caçando um pombo”, repete Erika. Não sei vocês, mas estou louco de vontade de fazer isso no próximo final de semana. Bora lá, usuário?

(crédito: Mosharaf hossain CC BY-SA 4.0)

SÍMBOLO CONSERVACIONISTA

O falcão-peregrino é um dos ícones do mundo alado. É um símbolo da luta conservacionista. Eles quase foram extintos em meados do século 20, na Europa e na América do Norte, devido ao uso de pesticidas como o DDT e seus efeitos na reprodução. O DDT usado na agricultura acabava circulando na cadeia alimentar. Os insetos contaminados com DDT acabavam virando presa das aves da rapina. 

Uma vez consumido pelos peregrinos e também pelas águias-de-cabeça-branca (a espécie símbolo nacional dos Estados Unidos), o DDT acabava acumulado na casca de seus ovos, tornando-os muito frágeis e quebradiços. Os ovos começaram a quebrar com facilidade. Em suma, o DDT na agricultura estava matando os embriões dos futuros peregrinos e águias ainda dentro da casca do ovo. Com a campanha conservacionista para proibir o uso do DDT, ambas as espécies saíram da zona de risco de extinção e puderam se recuperar.

Se você vir algum falcão-peregrino, tire fotos dele, escolha a melhor e poste no mural do aplicativo Click Biota!

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SAIBA MAIS!

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REFERÊNCIA:

Louise Mamedio Schneider, Clarissa de Oliveira Santos, Luciano Moreira Lima, Erika Hingst-Zaher. 2023. Peregrine falcon Falco peregrinus in Brazil: Natural history through the lens of citizen science. Ornitología Neotropical 34(1):29-39.

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